Descoberta relação entre proteína e aumento no ganho de peso

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Trabalho mostrou novas hipóteses de atuação da proteína SAA além de comprovar resultados já esperados.

Imagem mostra a ação do antisense para a SAA, o que impede o aumento do tecido
 adiposo mesmo em dietas ricas em gordura (imagem cedida pela professora Ana Campa)

A maioria dos casos de obesidade decorre de má alimentação, mas há fatores que podem agravar o ganho de peso de quem se alimenta mal. Realizado por um grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo, o estudo de um desses fatores, a proteína amilóide sérica A (SAA), chegou a resultados novos.

A coordenadora da linha de pesquisa na Faculdade de Ciências Farmacêuticas, professora Ana Campa, explica que há mais de dez anos o grupo estuda a atuação da proteína e que, desde 2009, o foco foi a relação dessa proteína na proliferação de células e como isso pode se relacionar com doenças como a obesidade e o câncer. A SAA é uma proteína produzida pelo fígado e faz parte das chamadas “proteínas de fase aguda”, que entram em ação em momentos de estresse no corpo como infecções e traumas.

Os resultados são parte da tese de doutorado de Edson Mendes de Oliveira, atualmente pós-doutorando da Universidade de Cambridge. Para estudar os processos que ligavam a SAA e a obesidade, os pesquisadores utilizaram camundongos em três grupos de teste. O primeiro era alimentado de forma saudável, o segundo grupo recebeu uma dieta rica em gordura e o terceiro grupo recebeu uma dieta também rica em gordura, porém, ao mesmo tempo, um antisense (ASO SAA), uma substância inibidora que bloqueia a produção da SAA. Dessa forma, por comparação, seria possível visualizar em que medida a atuação da proteína colaborava com o aumento do peso.

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Manchas vermelhas e amareladas são gordura subcutânea.  Camundongos com dietas ricas em lípides, porém utilizando-se o antisense, não tiveram aumento do tecido adiposo acima do normal (imagem cedida pela professora Ana Campa)

Os testes mostraram que os camundongos que tinham a ação da proteína bloqueada pelo antisense, mesmo com uma dieta gordurosa, não engordaram tanto quanto aqueles que receberam somente a má alimentação. Os níveis de gordura, ilustrados na imagem, foram semelhantes aos dos animais com alimentação saudável.

Campa explica ainda que “quando há um ganho de peso, há a possibilidade de desenvolver uma resistência à insulina”, e o estudo permitiu observar que a inibição da produção da SAA, além de impedir o aumento do peso, também impede que o camundongo desenvolva resistência a insulina.

Hipóteses novas

Entre as informações já conhecidas sobre a SAA, está a sua atuação na replicação de células e em processos inflamatórios. Os pesquisadores já sabiam, portanto, que uma das relações da proteína com a obesidade era a geração de um aumento na quantidade de células de gordura (adipócitos), ao gerar a produção de mais preadipócitos (adipócito em uma fase anterior). “O inesperado foi descobrir que o efeito dessa proteína não é só na proliferação [de células] como esperávamos, mas que ela deve ter um efeito extra”, conta Campa.

Além do que foi confirmado pela pesquisa, houve a novidade do surgimento de hipóteses sobre a ação da SAA na endotoxemia. O intestino humano contém uma variedade de bactérias que formam a microbiota intestinal e a endotoxemia é um processo, no qual, fragmentos dessas bactérias caem na corrente sanguínea. Isso ocorre porque há um aumento da permeabilidade da parede do intestino.

Quando estão na corrente sanguínea, esses pedaços de bactérias, chamados de LPS, podem atuar em células de diversos sistemas, como o sistema imunológico, sistema nervoso central (modificando a sensação de saciedade e o gasto energético, por exemplo) e nos adipócitos, fazendo com que eles entrem em uma programação de acúmulo de gordura. Ou seja, gerando ganho de peso através de mecanismos variados. O corpo possui células especializadas para recolhê-los e “limpar” o sangue.

Os pesquisadores descobriram que uma das formas de atuação da SAA relacionada com o ganho de peso é durante esse processo. O que ainda não se sabe é exatamente em que momento a proteína entra. Se no início do processo, aumentando a permeabilidade e levando a liberação dos fragmentos das bactérias intestinais ou no final do processo, impedindo as células especializadas de recolher esses fragmentos da corrente sanguínea.

Ana Campa ressalta que o principal mérito deste estudo foi a identificação de um novo elemento associando a endotoxemia com a obesidade e resistência à insulina e, por mais animadores que sejam os resultados, não se pode afirmar que haja uma nova forma de combate à obesidade. O uso do antisense ASO SAA, embora gere resultados satisfatórios na diminuição do ganho de peso, pode afetar outras áreas do organismo. “Existe a proposta de o uso terapêutico de antisenses, mas há complicações. Não podemos, por exemplo, usar em grande quantidade nos animais em testes. Da forma como utilizamos, não houve qualquer problema, mas isso é muito diferente de imaginar que possa ser utilizado por humanos.” O estudo originou o artigo Serum amyloid A links endotoxemia to weight gain and insulin resistance aceito na revista inglesa Diabetologia.